Sábado, 4 de Abril de 2009

PÓSTUMO...


E numa noite quente de outono, onde as coisas aconteciam, sonhos se faziam e derretiam, eu me lembrava de uma época remota. Minha mente viajava pelos caminhos obscuros do passado e eu percebia a cada segundo minha sina, como me sentia em relação ao que estava por vir, ou o que não estava. Lembrei de alguns de meus heróis, como me moldaram durante anos, como era confortável descobrí-los tão semelhantes a mim. Caminhava nessa noite quente de um sábado de outono, perto do domingo, segundo o relógio, depois de uma decepção (mais uma) que me fez perceber muitas coisas, coisas estas das quais não gostei, e percebi que o dia seguinte marcava os quinze anos da partida de Kurt Cobain, cinco de abril. Como seria minha infância se não fosse minha identificação com ele, me pergunto, provavelmente teria sido mais tranquila, mas não mudaria nada se pudesse voltar. Enfim, esse é um dia triste para mim, e gostaria de ter escrito algo mais profundo sobre ele, mas minha inspiração não anda suficientemente favorável para fazer jus à figura tão lendária, só posso dizer que sua presença faz falta, que sua atitude era impar, que sua vida foi curta e intensa e que sua passagem pela terra significou muito para muitos e que embora ele tenha partido, sua música permanece... descanse em paz, meu herói...

Sábado, 7 de Março de 2009

Searching With My Good Eye Closed (Procurando com meu olho bom fechado)


Pintei de azul ao redor de meus olhos
E amarrei um tecido sobre ele
Eu estou no meu caminho
Procurando por um paradigma
Para que eu possa torná-lo real
Ele estará do meu lado?

Ele chega até o céu e cai?
Procurando pelo chão com o meu olho bom fechado...

Se eu te desse uma carona
Você entenderia tudo errado
Ou você faria o certo?
Procurando por um pedestal
Onde eu possa te colocar e seguir o meu caminho

Ele chega até o céu e cai?
Procurando pelo chão com o meu olho bom fechado...

Pare! Você está tentando ferir minha mente
Eu posso fazer isto sozinho.
Pare! Você está tentando matar o meu tempo
Isso tem sido a minha morte desde que eu nasci.
Eu não me lembro de ter tempo

Eu posso estar me escondendo ou perdido
Mas estou no meu caminho...


Por Chris Cornell e Soundgarden - Álbum "Badmotorfinger" - 1991


"Ócio criativo quase chegando ao fim... paciência..."
Cleber.

Sexta-feira, 16 de Janeiro de 2009

RIO SECO


Sombras ao norte e presságios perversos me puxam como gravidade e o ciclo inevitável que segue tem o odor amargo do dejavu. Enquanto a paranóia cresce, tento desesperadamente cessar as concatenações conspiratórias feitas involuntariamente. Olho no fundo da mente e encontro o desejo oculto de ignorar o que vejo no coração das pessoas, perturbado por enxergar apenas o lado obscuro de suas almas.

Envolto na densa e cínica névoa da natureza humana, sem poder me libertar, os pesadelos parecem confortáveis diante do mundo no qual acordo, embora veja com clareza onde é o fim, o medo é inevitável e meus olhos doem.

Minha conduta é questionada, uma aberração, uma anomalia perturbando o equlíbrio natural. Prezar por sorrisos artificiais, aderir a toda a sinceridade plastificada, esconder-se atrás de uma personalidade oca e se perder num labirinto vazio, sem fim, sem dor.

Esqueço todas as dúvidas, vislumbro apenas a superficie, sinto meu ódio desvanecer e tento não sangrar. O jogo é simples, demorei a aprender, mas minhas cordas estão soltas, marionetes não têm vontade nem vida. A adaptação de um verme longe de casa, fingindo não ser nocivo, ainda vivo, repousa num inferno recriado.

Mas algum dia, quando o curso do rio for mudado e eles puserem as moedas em meus olhos, o fogo confortável e acolhedor me adormecerá e o barqueiro me levará para casa.

Domingo, 16 de Novembro de 2008

Clebração da Euforia Utópica



O sono cansado do dia seguinte me remete à noite anterior, uma noite quente de uma quarta-feira cinza. Numa improvável sucessão de acontecimentos que desencadearam num final impensável para desafortunados no que diz respeito à sorte. Todos os tortuosos caminhos eram consideravelmente imprevisíveis, os cães ladravam, e embora mansos, suas intenções pareciam perversas. A noite e a ansiedade transformaram a cidade num traiçoeiro e interminável labirinto, enquanto ignorávamos atentos os sub-humanos chafurdando o lixo da metrópole.

Jornada essa iniciada com a certeza de uns e uma despreocupada incerteza de outros. Os encontros e desencontros de uma diversão coletiva previamente planejada já eram previsíveis o bastante para evitar comportamentos aflitivos. Obviamente a ansiedade era natural com a iminência demorada da chegada ao local do evento, afinal, esperamos descrentes alguns anos de nossas vidas para poder desfrutar da barulhenta e confortável companhia de alguns heróis remanescentes do autêntico grunge de Seattle.

Toda a expectativa seria recompensada. Apesar de alguns imprevistos, eles (o Mudhoney) subiram imponentes ao palco e descarregaram alguns de seus clássicos. A multidão ensandecida, surpreendentemente, berrava a plenos pulmões algumas das músicas do quarteto de Seattle. A atmosfera era incrível. E toda a espera, no fim valeu a pena.

Após o final do show, extenuados pela diversão, restava-nos voltar à nossa cidade, tarefa complicada, considerando o horário. Mas não era uma noite qualquer. Apesar de tudo conspirar para o nosso fracasso na tentativa de retorno e da insistência irritante de alguns “companheiros” para que desistíssemos de nossa empreitada e aceitássemos sua gentil hospitalidade ao nos oferecer abrigo, permanecemos otimistas (quem diria) de que nossa corrida não seria em vão. Se desse errado, a rua seria nosso quarto durante aquela noite, sem direito a dormir.

Mas como disse antes, aquela não era uma noite qualquer, era nossa noite de sorte (provavelmente a primeira). Chegamos atrasados ao ponto, teoricamente, o ônibus já deveria ter partido, mas lá estava ele estacionado, quebrado, um outro já estava a caminho. Um ônibus quebrado geralmente significa azar, mas não naquela noite, não para nós. Apenas esperamos a chegada do substituto para rumarmos de volta à nossa província industrial.

Quando finalmente chegamos, já não havia forma de irmos para casa a não ser os sempre perspicazes e confiáveis motoboys, então decidimos ir a pé. Ignorando os riscos óbvios de caminhar cerca de 3km em plena meia-noite de quarta-feira, seguimos despreocupados, recordando o dia desde seu início, quebrando o silêncio da noite, a cidade era nossa.

Dormir era apenas um detalhe, o dia fora bom, diversão, álcool, rock and roll, subversão de algumas regras, e a companhia de bons e velhos amigos. Todos os dias deveriam ser assim, mas uma realidade dessas é apenas utopia, infelizmente.

Domingo, 2 de Novembro de 2008

SEM RAIZ...



Sem mais perguntas vazias, minha mente faz uma jornada de autoconhecimento. Definir uma direção implica em planejamento, metas e responsabilidades em demasia, talvez eu não seja a pessoa mais preparada para tal coisa. Alguns chamam isso de irresponsabilidade ou negligência, e talvez seja mesmo, talvez eu não tenha sido moldado para ser enquadrado num determinado contexto.

Eu fui do céu ao inferno e vice-versa por algumas vezes, vi as coisas se acertarem para logo em seguida desmoronarem, vi as chances passarem sem serem aproveitadas, vi minha expressão inerte naquele espelho sujo, tão inerte quanto minha questionável personalidade. Seguindo um padrão catastrófico de fracassos sucessivos, mantive-me coerente diante da incoerência reinante, sem negar a natureza derrotista na qual mergulhei.

Diante da abundância de sugestões, palpites e "conselhos", aprendi os dogmas da milenar arte da indiferença, certo de que não haveria julgamento a um ser tão insignificante quanto eu. Minha discutível importância seguiu nula em minha mente perturbada e minha inexpressiva face permaneceu gélida e cinza.

Em minha sagrada ignorância me perdi num mundo utópico de sonhos impossíveis – pelo menos para mim – e a inevitável decepção decorrente da expectativa jogou-me no abismo da desilusão. Porém, fracassos anestesiaram minha alma, decepções não existem porque não há mais expectativas, esperanças ou qualquer vestígio de otimismo. Agora lúgubre, permaneço em silêncio.

Embora ainda questione parte das escolhas que fiz não me sinto a vontade nem motivado, nunca me senti, na verdade. E todas as coisas que vivenciei aparentemente não serviram para nada. Minha inutilidade me decepciona. Não sei bem para onde ir e nem porque ir, também não sei se devo seguir uma direção ou se foi minha paranóia que piorou nos últimos anos, e embora não esteja certo de nada, de uma coisa sim, tenho certeza, embora não saiba se espiritualmente ou fisicamente, sei que meu lugar não é aqui... não mais...

Domingo, 7 de Setembro de 2008

VICARIOUS



Olho na TV
Porque a tragédia me excita
Qualquer gosto
Isso vem a ser
Como ser assassinada pelo marido
Afogada no oceano
Baleada pelo próprio filho
Ela usou um veneno no chá dele
E deu-lhe um beijo de adeus
Eu tenho uma história
Nunca é tão engraçado até alguém morrer

Não olhe pra mim como se eu fosse um monstro
Despreze seu único rosto
Mas com o outro...
Olhe como um viciado para a TV
Olhe como um zumbi
Enquanto as mães seguram seus filhos
E os assistem morrer
Mãos aos céus chorando
Por quê, por quê?

Porque eu preciso assistir a coisas morrerem à distância
Indiretamente eu vivo
Enquanto o mundo inteiro morre
Vocês todos precisam disso, não mintam
Por não conseguem admitir?

Nós não daremos pausa até o sangue escorrer
Escritores com suas histórias vendidas
Nós não daremos pausa até o sangue escorrer

Eu preciso assistir a coisas morrerem
A uma boa distância segura
Indiretamente eu vivo
Enquanto o mundo inteiro morre
Vocês todos sentem o mesmo
Então por que não conseguem admitir?

Sangue igual a chuva caindo, inundando o túmulo e a colina
Parte vampiro, parte guerrilheiro
Carnívoro e guerrilheiro
Ainda transmite
Para penetrar com a pancada mortal
Ingênuo no seu melhor desejo
De acreditar em anjos nos corações dos homens
Abra a sua cabeça; sua cabeça acredita, então por favor escute

Não deveria ter que dizer tudo de novo
O universo é tão hostil, tão impessoal
Destrói pra sobreviver, assim que é
Assim que sempre foi

Nós todos nos alimentamos de tragédia
É como sangue para um vampiro
Indiretamente eu vivo
Enquanto o mundo inteiro morre
Antes você do que eu...
Por Maynard James Keenan e Tool - Álbum "10.000 Days" - 2006
"Repetição causa frustração... segue o enterro..."
Cleber.

Sexta-feira, 25 de Julho de 2008

NUBLADO


Em meio a uma furiosa tempestade, sua esperança se dissolveu lentamente e sua vontade se esvaiu, enquanto o único sonho ao qual não queria abrir mão parece que se tornou inatingível. Tomou uma difícil decisão, esquecer o tal sonho e parar de alimentá-lo, já que o considerava quase que uma utopia, embora esse sonho estivesse ao alcance de suas mãos ele sabia que nunca o pertenceria. Na verdade não sabia, apenas não se considerava merecedor. O sonho parecia mais belo enquanto estivesse longe dele, se considerava uma incômoda sombra que encobria o brilho divino desse sonho.
Teve pesadelos, suas olheiras tornaram-se notáveis, seu mundo comprimiu-se e sua personalidade distorcida pela angústia se perdeu nos confins de sua mente. Questionou-se quanto tempo aquilo duraria, até que percebeu que jamais passaria, teria que aprender a conviver com a dor. Sua conhecida frieza glacial seria finalmente testada, poderia enfim saber se controlava sua vontade ou se era uma mera marionete de seus próprios desejos. Tomado por um sentimento desconhecido que o fazia sentir-se fraco e vulnerável, que o jogava pra baixo como algum tipo de gravidade, que o encolhia diante de uma tenra lembrança, apenas chorou. Era só medo, um medo profundo de viver sem esse sonho, conheceu o medo real finalmente.
Decepcionado com tamanha demonstração de fraqueza, quis desaparecer, buscar um lugar desconhecido, um refúgio para descansar sua alma. E ao fechar os olhos deparou-se com belas e verdejantes planícies, onde a brisa macia tocava seu rosto como a epiderme daquele seu sonho improvável, foi então que a tempestade voltou e todo o verde cintilante daquelas paragens se transformou em lama e decepção. Agora ele sabia que por mais longe que fosse ou tentasse ir, jamais esqueceria aquele sonho, porém sabia também que estar perto e não poder realizá-lo seria doloroso como a morte deve ser. A vida se tornaria uma constante tentativa de ocupar a mente para esquecer o que tanto se almejou.
Enfim conformou-se com seu destino, embora não acreditasse em tal coisa. Sem perceber durante sua jornada até aqui, foi sendo lapidado ás avessas, como num processo retroativo, uma involução gradativa. Conformou-se, apenas escondeu-se por trás dos sorrisos alheios provocados propositalmente por ele mesmo, encarou a angustiante verdade que negara até então, porém não mais podia fugir dela. Era isso, fora moldado para morrer sozinho, apenas as sombras das nuvens o acolheriam e o confortariam, até o fim.

Terça-feira, 22 de Julho de 2008

Vazio...

Ele não queria saber
Quantos dias pra entender
Tão só, cansado de esperar
Suplicando por perecer...

Entre sons buscou perceber
Quantos dias tinha pra crer
Na paz, com coração a queimar
E o inferno pra carregar

Pôs os pés no chão
E quis esperar
Toda a dor passar

Corre em suas veias, ilusão e dor
Sem mais promessas, quando o tempo for...
Mais frio que todos aqui
Sonhos distorcidos, “apenas me deixem só”

Ele não queria saber
Quanto medo podia ter
Nem mais um minuto de paz
A esperança só se desfaz

Verdades demais
Tanto pra esquecer
Pouco pra saber

E um inferno pra suportar...